"Para a maioria, quão pequena é a porção de prazer que basta para fazer a vida agradável!"
O encontro casual com um surrado exemplar de " O Anticristo" motivou uma longa reflexão sobre o fenômeno pop mais contraditório que já vi : um velho alemão ranzinza e petulante ( para os que não sabem, Friederich se achava o último halls de melancia do tubo). O fruto da reflexão será publicado em versão reduzida, em decorrência de uma tenebrosa "chuva -fina- alimentadora -de- preguiça".
NIetzsche com suas teorias pessimistas e desconstrutoras, abocanhou postumamente um séquito de leitores jovens e soturnos.Ficou conhecido como o filósofo do martelo, pois quebrava tudo com suas frases de concreto , como por exemplo " O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte." ou ainda "Torna-te aquilo que és.". A descrença na humanidade, o repúdio às paixões e a gama de influências que ele exerceu na produção artística do mundo ocidental contemporâneo, fez com que os jovens se interessassem não por filosofia alemã , mas sim pelo ícone pop que nietzche se tornou.Sabe como é, aquele roqueiro famoso lê e aquela atriz diz que ele mudou a vida dela ( e vai seguindo assim).
O que mais me perturba é saber se as editoras perceberam os anseios de um público sedento por uma boa dose de mau humor prolixo e rebuscado, recheado de verdades duras e previsões desconcertantes sobre o futuro da humanidade, fazendo com que seja possível encontrar livros do bigodudo nos locais e edições mais variados: de prateleiras de supermercado a postos de conveniência..sem contar as bancas de revista.Mas será que não foram as editoras que provacaram essa inundação nietzchiana na mídia e nas prateleiras? e só a partir daí é que o público, vencido pelo cansaço, passou a considerar a hipótese de levar para casa um belo enfeite de prateleira: barato e que costumava dar um ar intelectualóide.Não me atrevo a dizer de quem é a "culpa" , mas o autor certamente ficaria feliz com tanta polêmica em torno do seu nome...Já ganhou até versão explicada e uma espécie de ficção de fácil entendimento ( sim, é best-seller o nome disso)" Quando Nietzsche chorou", que talvez não o deixasse assim tão feliz, apesar de não ser um livro ruim...
Alguns culpam a violência e o individualismo como principais motivadores do crescimento de um nicho editorial que preza pela auto-ajuda do indivíduo.Particularmente não tenho nada contra os leitores sombrios e revoltados com o mundo, que se aproveitam das dicas de zaratrusta, O Super-homem,para odiar ainda mais o mundo , no fundo a motivação é mesmo conhecer a si mesmo. Eu confesso que meus motivos não foram assim tão revolucionários e nobres, só comecei a ler porque era barato e tinha a capa bonitinha ( primeiro livro adquirido aos treze anos na banca da rodoviária: A genealogia da Moral, papel pardo e na capa,verde , O pensador, do grande Rodin) mas deixo aqui registrado que sem um conhecimento do contexto histórico e também da vida do autor ( eita vidinha problemática) , a possibilidade de ocorrer uma falha de compreensão é enorme.Em suma, nada mais comum do que ver em estampas de camisetas, faixas de protestos, muros de grandes cidades e blogs( viva a tecnologia, viva a liberdade de expressão)frases desconexas e carregadas de uma ideologia pesada, que infelizmente se perdem e reduzem a obra do grande mestre à lixo de adolescente metido a revolucionário.Pedido encarecido de quem, após um longo hiato com o autor ( aos treze anos ninguém entende de verdade o que "É pelas próprias virtudes que se é mais bem castigado" quer dizer) retomou de maneira um pouco mais consciente a leitura , por favor, cuidado! esses alemães são um perigo pra cabeça da gente...